sexta-feira, 20 de abril de 2012

morte

elíptico giro
eclipsado –
disco irradiante
de fogo
na abóbada
subita
mente
erradicado:

ausência de
reflexos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

de marcações

Espaço: mínimo meio
entre quaisquer palavras,
infinita distância entre dois significados,
invisível  linha que permeia
a permissão dada a qualquer frase

Tempo: ampla morada
de todas as fugas ruindo
no silêncio de seu próprio vazio,
tumultuado e incoercível,
sob a sombra de um ilusório deus

Espaço-tempo: a impossibilidade da definição

quinta-feira, 15 de março de 2012

As informações vinham lentas e sem urgência
demorando-se nos suculentos  bananais à beira
das estradas
de terra e bocas de visitantes
distantes no tempo de meus bisavós
De quando em vez um fato narrado
resgatava uma lembrança ancorada
nas águas da longínqua terra natal
e eles ruminavam com o gado,
pedras e vegetais sob o céu
nas longas noites estreladas
tanta notícia recém-chegada, questionando-se :
“Quem somos nós e porque estamos aqui?”
A única resposta com a qual o vento
os agraciava durante a contemplação
era que homens inquietos – e
por isso mesmo mais sensatos –
e antes deles, macacos
também já se perguntavam
há muito ao som
de tambores e sombras
projetadas pela luz de fogueiras
em úmidas cavernas de paredes
pintadas com verve por mãos perscrutadoras
de paleo e neo-
líticas mentes lúcidas e investigadoras
da realidade:  “Quem somos nós
 e porque estamos aqui?”
...
E a despeito de tudo isso, agora
a nossa atual in-
                           formação
transbordando cega e inconsequente
por cada canto e poro
a uma velocidade verborrágica
que atravessa cidades,
estados, países e mundos,
contando inverdades, impede-
nos de nos olharmos e olharmos
para o céu e questionarmos
quem somos nós e porque estamos aqui.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A Ferrovia


Assentamento provisório de uma tribo Paiute do Norte, nas proximidades de Reno, Nevada, Condado de Washoe
25 de agosto de 1873


Ilmo Sr. White,



A presente missiva provavelmente lhe causará certo desconcerto, pois contém a devida elucidação a respeito de meu brusco desaparecimento meses atrás – e garanto que não é a explicação que todos esperam ou imaginam. Não só: muito embora traga também os esclarecimentos necessários sobre os contratempos que tiveram decurso durante a construção de sua nova linha ferroviária na região que cerca Carson City, Nevada, é meu dever deixar claro de antemão que esta não trata-se de uma carta de desculpas. Muito pelo contrário; e saiba que tampouco apresentarei quaisquer escusas por me dirigir a V. Sa. da forma atrevida como o faço agora. Se quiser, bem pode considerar tudo isso como um mero pedido de demissão deveras excêntrico, mas fazer isto seria uma pobre – e digna de pena, quero ressaltar – demonstração de sua má-fé e pobreza de espírito. Uma cegueira voluntária, se preferir. O que me motiva a escrever neste momento é algo muito maior: justamente a vontade de afirmar a minha posição perante o mundo e, desta forma, me colocar rigidamente em pró dos recentes acontecimentos que resultaram na interdição temporária da citada construção. Eu sou como um cavalo em fuga que corre até morrer, Sr. White. 

Como V. Sa. certamente há de se recordar, eu fui o encarregado da linha desde o início  da obra, e confesso-lhe que naquele período inicial tal encargo de tremenda responsabilidade era mais que o suficiente para insuflar em meu ser todo o orgulho necessário à qualquer homem honrado de nosso tempo. Lembro-me de ter lhe confidenciado isso à época, durante aquele adorável jantar comemorativo, em companhia de sua esposa e filhas. Eu estava profundamente determinado a cumprir à risca minhas funções, não só por uma questão de orgulho pessoal, mas porque era esperançosa a lembrança de que em 1865 os trens só alcançavam até o Missouri e, apenas quatro anos depois, nossa primeira ferrovia transcontinental já estava completa! E pensar que tudo havia começado com a Baltimore and Ohio Railroad, fazendo o simples trecho de apenas 13 milhas entre Baltimore e Ellicott’s Mills. Era a promessa cumprida de progresso e futuro. O único problema é que, analisando agora, sei que eu já não confio em – e muito menos quero ser – um destes ‘homens honrados de nosso tempo’, que vivem o progresso e o futuro. Compreende?

O problema todo é bem simples, veja: se, como eu já descrevi, um cavalo em fuga pode correr de forma tão exaustiva que atinge a própria morte, o que então um trem é capaz de fazer quando inesperadamente depara-se com o fim dos trilhos? Pois isso é exatamente o que acho que estamos vendo por aqui, Sr. White. As esperanças de progresso chegam próximas do fim da linha à uma velocidade tremenda, cuspindo sem piedade vapor negro no céu antes azul. E creio que toda esta fumaça em nossos olhos nos impedirá de concretizar tais promessas. Ou pior! são realmente apenas promessas e, em verdade, encontram-se intangíveis, bem além do fim dos trilhos. 

                              Sei que V. Sa., não concordará e, ainda por cima, objetará meus argumentos, defendendo a idéia estabelecida de que é necessário o avanço das linhas cada vez mais, a todos os cantos, com a finalidade de promover e garantir a marcha do oeste. Afinal, é isso que nos assegurará os territórios arduamente conquistados à custa daqueles malditos pele-vermelhas, não é? Além disso, são estas mesmas ferrovias que permitem o escoamento da produção do Oeste para o Leste, permitindo a nossos compatriotas enriquecerem, melhorarem suas grandes cidades e industrias. Não é isso mesmo? Isso sem falar da possibilidade de maior aquisição de recursos naturais, como os malditos e desejados ouro e prata, e a ampliação de nossa área agro-pecuária. 

                              Sim, de fato tudo isso parece muito promissor à primeira vista, Sr. Withe. Mas, peço-lhe agora que paremos por um instante de mirar o futuro e voltemos nossos olhos para o passado. Refiro-me ao início deste belo país, ou melhor, quando ele ainda nem era um país de verdade e lambia o podre barro das botas da Inglaterra. Nessa época ele, que não era ainda um país, era somente belo. Pois bem! Será agora V. Sa. capaz de me dizer exatamente qual o primeiro fato que nos chama atenção neste momento inicial de nossa história? O primeiro incidente curioso e praticamente sem explicação aceitável? Ora, V. Sa. é um homem instruído, tenho certeza de que sabe muito bem do que estou falando. Trata-se, obviamente da colônia na ilha de Roanoke.  

                              Esta mesmo, tão cercada de mistério, e que aparentemente sumiu do mapa sem deixar rastros, a não ser pela vaga mensagem entalhada de que talvez tenham abandonado tudo e se juntado aos índios locais. Afinal, no assentamento deserto não foram encontrados sinais de luta ou invasão, e o local não parecia ter sido abandonado à pressa. Apenas o conhecido entalhe ‘Croatoan’, que fora o sinal combinado previamente para indicar que o local havia sido abandonado de forma pacífica. O nome, como sabemos, designava umas das tribos indígenas locais – justamente a mais amistosa. E o que aconteceu a esta ‘colônia perdida’ que a torna um objeto de tamanho interesse para nós? Não seria simplesmente o fato de que não conseguimos explicar tal incidente através de nossa lógica? Mas então...

                              E se tomarmos um outro ponto de vista?, já que o nosso, como acabamos de demonstrar é insatisfatório para resolver a questão deste mistério. E com isso eu afirmo que o mistério do desaparecimento só existe porque estamos analisando o fato com o ponto de vista errado! Pelo menos para mim, é muito evidente que estes primeiros colonizadores largaram por sua própria vontade as suas míseras habitações e duvidosas esperanças de sucesso e foram viver com seus vizinhos focinhos-vermelhos. Afinal, estes últimos lhes pareciam muito bem acomodados naquela terra inóspita, vivendo sem maiores problemas e não tendo de enfrentar todas as imensas dificuldades que os colonos sofriam dia após dia para garantir sua sobrevivência. De fato, é até mesmo conhecido um convite inicial de Croatoan, feito à este colonos, para juntarem suas populações. Pedido que foi inicialmente recusado – afinal,... ir morar com os selvagens? Mas, lhe questiono, e se em determinado ponto as coisas se tornassem tão duras para estas pessoas, que a promessa de um novo mundo no futuro não superasse as dificuldades de garantir a sobrevivência no presente? Não tenha dúvidas V.Sa., estou convicto que a colônia de Roanoke sabiamente se juntou à tribo Croatoan. Prova disso, é que se a colônia tivesse sido atacada, o acordo prévio era entalhar a palavra ‘Croatoan’ sob uma cruz, mas no caso a cruz estava ausente. E o que isso tem a ver com o nosso caso?, V. Sa., me questiona.

                              Eu acredito que tudo, senhor. Aqui reside a explicação que sua companhia ferroviária tanto buscou arrancar de mim durante os dezessete meses em que trabalhei a seu serviço, mas recusando receber o meu salário de supervisor encarregado das obras da nova linha. Também esta história tem um paralelo com a narrativa de meu sumiço sem vestígios. Como há de se recordar, nosso trabalho nas cercanias de Carson City muito sofreu desde seu começo com os inesperados e súbitos ataques de índios da região, fossem eles de Paiutes, Washoes, uma misturas de ambos ou outros mais. E creio que seja correta a suposição de que até mesmo foi este empecilho que levou sua empresa ferroviária a escolher minha pessoa como responsável pela garantia de sucesso do empreendimento. Afinal de contas, e sem falsa modéstia, reconheço que possuo certa fama de herói durão e obstinado, em decorrência de meus feitos e esforços durante a Guerra Civil.  Fama que me custou uma orelha, como bem sabe.

                              Eu mesmo tracei vários planos para combater estes índios que pareciam apenas estarem empenhados Em frustrar nossos esforços de levar a civilização até eles. E cheguei a confrontá-los em diversas situações e combates. Quantos trabalhadores nossos não morreram nos trilhos que tinham acabado de firmar? quantas locomotivas e vagões não foram incendiados por flechas tão somente por que se encontravam lá? Isso tudo me fervia o sangue, eu não via a hora de acabar com todos estes peles-vermelhas irracionais. 

                              Entretanto havia nisso tudo algo que me desconcertava. O que levava estes homens, aparentemente sãos, a realizarem tais atos de bravura desnecessária e, aparentemente desmotivados? Porque destruir as linhas e locomotivas, ao custo da própria vida, e muitas vezes aliando-se à tribos rivais? Eu não conseguia entender isso. Até que, após diversos destes conflitos, conversando rapidamente com muitos sobreviventes em seus momentos finais, comecei a compreender algo da forma como eles pensavam. Sim, pois ao contrário do que V. Sa. acredita, estes selvagens realmente pensam, mas talvez o preconceito do senhor ainda precise de uma nova lei, como a ‘Proclamação de Emancipação’ do presidente Lincoln para os negros – de dez anos atrás! – para compreender isso. 

                              O que é uma pena, pois o pensamento selvagem poderia lhe ensinar muitas coisas que sua instrução européia falhou em transmitir. Por exemplo, estes índios, porque será que se recusam a ir para a Reserva Maulher, fugindo sempre deste lugar escolhido precisamente para eles e seus semelhantes poderem viver? Porque ainda insistem e persistem com seus modos de vida primitivos, caçando e coletando e recusando-se a compreender os benefícios de nossas cidades e agricultura? Porque não podem ser como seus irmãos Choctaw, que se transformaram em uma tribo civilizada? Talvez eu esteja errado, mas o que pude ver nos olhos sinceros daqueles que morreram esmagados por nossas locomotivas me pareceu uma visão mais realista e correta das coisas, e de como elas funcionam.  Estes índios estavam lutando contra o que nossos trilhos representavam, contra o que nós insistimos em lhes levar, mas que eles não acreditam nem confiam: a nossa idéia de progresso. Porque o modo de vida deles não impede o nosso, mas o nosso impede o deles.

                              E a nossa idéia de progresso é exatamente aquilo V. Sa. sempre promove e defende. Cidades maiores e melhores, com populações mais ricas e protegidas da natureza ameaçadora, mais oportunidades de trabalho em mais áreas, mais saúde, mais felicidade, mais segurança, mais justiça, mais isso e aquilo, indefinidamente acumulando-se pela eternidade. Um futuro cada vez mais próspero para o homem. E será isso mesmo o que vemos em nossas cidades, Senhor White? Ou será que cidades maiores começam a não funcionar direito, tendo mais problemas de organização, com populações que geram mais crimes e doenças, violência, jogos e vícios, mais pessoas passando fome, com menos homens capazes de fazer algo para sustentar suas famílias, com os mais ricos explorando os mais pobres? E serão também os Choctaw mais felizes agora do que antes?, esquecendo sua própria língua, sendo confinados em espaços cada vez mais claustrofóbicos, incapazes de pertencer à sociedade que escolheram abraçar. Será que aqueles primeiros colonos que partiram de Roanoke rumo à tribo de Croatoan já haviam entendido isso que agora custamos à aceitar? Que o preço da civilização não compensa NUNCA em termos de custo/benefício. Tenho certeza de que esta linguagem econômica o senhor é capaz de compreender.

                              É disso que estou falando aqui, senhor White. Estes índios me parecem mais felizes, mais saudáveis e fortes (nenhum deles precisou arrancar três dentes com o velho Dr. Jones, como eu o fiz), mais justos (suas mulheres não são obrigadas a venderem seus corpos em fétidos saloons, a não ser quando se mudam para nossas cidades), mais honrados, mais sábios em relação ao mundo; enfim, melhores em tudo que nossos melhores homens. E eu decidi, após ver estes bravos combatentes, que não dependeria mais de homens como o senhor para garantir a minha felicidade; homens que exploram outros enquanto passeiam felizes com um charuto na boca e um whisky no paletó. Após trabalhar dezessete meses recusando-me a receber o devido salário e sobrevivendo de meus próprios esforços, através de uma agricultura de subsistência que iniciei em minhas acomodações em Carson, senti-me capaz de abandonar tudo aquilo em que não acreditava; inclusive o meu trabalho na ferrovia. Afinal de contas, o pai de meu pai não precisava de nada disso e sobrevivia, e também o pai dele, e o pai do pai dele. Eram outros tempos, eu sei, mas a essência dos homens e suas necessidades básicas serão sempre as mesmas em qualquer época ou lugar. No fim, somos todos iguais. Foi com isso em mente que um dia saí sem ser visto e procurei por nossos rivais. Humildemente pedi para me juntar à eles em sua batalha contra a insanidade do homem branco. Não que tenha sido fácil – e realmente não o foi! – mas finalmente fui aceito. Como isso se deu é um assunto que por ora foge aos propósitos desta carta.

                              Assim, e para concluir, se V. Sa. quiser, pode chamar os Xerifes ou os casacas azuis, pode colocar minha cabeça a prêmio ou contratar os pistoleiros mais rápidos no gatilho ou certeiros de mira – eu deixarei  o cão de meu Colt .45 preparado e minha querida Winchester à vista – mas já tomei a minha decisão: intimo V. Sa. a encerrar as atividades de sua companhia nas proximidades da cidade de Carson e suspender projetos futuros. Como sei que isso de nada vale para o senhor, peço que volte seu pensamento para o mal que está causando à esta grande nação, correndo até  o limite com suas negras locomotivas, que atingirão, logo mais ou logo menos, o fim da linha e cairão no imenso precipício à sua frente. Lembra-se do episódio em que o cavalo corre até morrer? Caso se recuse a aceitar minha proposta, aviso que envidarei todos os meus esforços para impedir ou pelo menos retardar a construção de sua nova linha ferroviária. E mais, de qualquer empreendimento no qual sua empresa vier a participar no futuro.  

                              Sem mais que mereça ser relatado, despeço-me aqui.
                                                                                                                             Theodore K. Black

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sangue de Dragão

           O que se sabe a respeito desta trágica história não nos foi primeiramente transmitido através de palavras escritas ou faladas. Isso porque na época dos acontecimentos narrados a fala e suas palavras ainda não haviam sido inventadas, e os homens compartilhavam a superior inteligência dos fungos, num sonho vivo e mudo com o resto dos seres. Trata-se, portanto, da narrativa primordial, que remonta a incalculáveis e imemoráveis eras atrás, quando nem mesmo o tempo existia e os homens eram iguais aos animais e aos vegetais, caindo como a chuva quando se entristeciam ou correndo como um rio pela verde mata quando se alegravam.
Assim, os homens deste tempo não podiam ser propriamente chamados de homens, pois eles se sentiam como os outros também se sentiam. E tinham seus momentos de violência que desembocavam nos mares e momentos de calma em que se confundiam com as nuvens no céu. A vida não era fácil, entretanto fluía sem entraves, como a água atravessando as partículas do solo até alcançar as raízes de uma planta. Mas, não se sabe ao certo se dentro destes homens primitivos algo já crescia da forma como o limo cresce sobre as águas estagnadas. É até possível que não, mas um dia isso de fato aconteceu, como bem veremos.
Havia já um longo tempo em que os sábios e antigos dragões visitavam aqueles pobres macacos desgarrados. Não se sabe bem porque tal relação havia sido estabelecida entre eles – visto que os dragões eram seres à parte, dotados de uma sapiência intuitiva impar e, devido a isso, considerados como portadores da totalidade da natureza em seus corações –, mas o fato é que as coisas funcionavam desse modo, sem que ninguém se lembrasse do por quê.
De tempos em tempos um dos velhos dragões – e nunca o mesmo – descia até o lugar onde aqueles homens primordiais estivessem e fazia daquele um dia de muitas dádivas. Primeiramente, neste dia ninguém, fosse macho ou fêmea, precisaria se dedicar às habituais tarefas de caça e coleta, pois o dragão visitante oferecia a todos um pedaço de sua própria carne, grande o suficiente para todos se alimentarem. Como os dragões eram criaturas perfeitamente adaptadas à vida que levavam o pedaço doado nunca lhes fazia falta, nem tampouco lhes causava algum tipo de incômodo. E os homens, satisfeitos, agradeciam e celebravam a comida recebida, dando em troca ao dragão um dia em sua companhia, realizando jogos e brincadeiras primitivas. Como todos sabem, o que os dragões mais prezavam sempre foi o sentimento de amizade e companheirismo, e talvez justamente por isso eles sempre regressassem.
Depois, quando a noite avançava e todos já estavam cansados e fartos de tantas peripécias e lazeres, o dragão ajeitava uma pilha de madeira coletada pelos homens e, com um breve e poderoso sopro vindo de seu interior mais profundo e aquecido, acendia uma fogueira.  Os homens maravilhavam-se com aquelas labaredas que pareciam trazer à tona a memória viva de passados remotos do mundo, quando este ainda fervia sem vida, flutuando no escuro. Rapidamente todos eles se ajuntavam ao redor do dragão e de sua fogueira e ficavam a esperar, sentados, algo acontecer.
E de fato, algo então acontecia. Iluminados pela luz vermelha das chamas, os olhos do dragão contavam uma história silenciosa, que era sempre igual e, ao mesmo tempo, diferente de dragão para dragão. Os homens, imediatamente cativados, entendiam-na apenas de fitarem aquele olhar profundo – o qual não havia como evitar –, e de certa forma, sentiam como se também participassem da narrativa. Pois afinal, era uma longa história, que abarcava todo o que se conhecia ou desconhecia, começando com o ignoto começo de tudo e terminando em algum dos inumeráveis finais possíveis, passando sempre pelo então momento presente.
Os homens sempre acabavam por dormir antes de o dragão contar a conclusão de toda aquela epopéia, mas isso parecia não incomodá-los. Aparentemente era assim que devia ser e a noite transcorria agradável e sem incômodos, repleta de sonhos inenarráveis. No outro dia, quando acordavam, o dragão já não estava mais entre eles, tendo se ido sem deixar rastros. Os homens recomeçavam então seus poucos afazeres – que se resumiam a andar em busca de frutas ou animais – sentindo que algo mais lhes acompanhava em sua jornada. De alguma forma o dragão e sua história maravilhosa ainda estavam presentes com eles, imbuindo de alegria e satisfação o coração de cada um.      
Os dias transcorriam então sem qualquer perturbação. Até que novamente, quando enfim o brilho de bem-aventurança insuflado pela narrativa da serpente de fogo começava a dar mostras de cansaço e enfraquecimento, um novo visitante do povo draconiano surgia no horizonte. Os acontecimentos de sempre novamente se repetiam, e os homens acordavam no dia seguinte prontos para recomeçarem suas boas vidas, até que fosse a hora da visita seguinte. E este ciclo se repetiu tantas vezes sem conta que ninguém acreditava que um dia ele fosse deixar de se reproduzir. Mas tal dia chegou, sem que quase ninguém percebesse.
Pois houve uma vez em que, depois de desfrutarem todos juntos dos lazeres tradicionais, um dos dragões visitantes notou algo muito estranho em um daqueles homens sentados ao seu redor, que encaravam seu olhar fabuloso sob as chamas da fogueira. Havia este homem desviado seu olhar, por qualquer razão que fosse, e encarava uma planta vermelha ao seu lado. O dragão não chegou a entender o que de fato aquilo significava e suas terríficas consequências – pois nunca havia acontecido antes de algum homem deixar de prestar atenção às silenciosas narrativas de seus irmãos serpente de fogo –, mas neste instante uma leve sombra desceu sobre sua cabeça. Mesmo que o homem tenha deixado sua atenção ser atraída pela planta apenas por alguns instantes e o resto da noite tenha se desenrolado de acordo com os antigos costumes, o dragão já sabia que algo havia se perdido, talvez para sempre, naquele momento. E ele não estava errado, pois com o dragão seguinte foi ainda mais estranho.
            Quando chegou a hora de uma nova visita, e um dragão desceu dos céus até onde os homens encontravam-se, a fim de lhes insuflar novamente esperança onde ela começava a fraquejar, uma situação diferente já se desenrolava. O que este dragão encontrou ninguém de sua raça antes dele havia visto. Pois desta vez havia um dos homens que não participara das brincadeiras e jogos e ficara separado dos demais, apenas observando as tais atividades de lazer. Não havia nenhuma razão aparente para ele estar agindo assim, mas de qualquer forma, ele parecia satisfazer-se com isso, excluindo-se dos demais. O dragão não fez nada, apesar de ser evidente pela sua postura que não estava tão seguro da situação.  E a noite foi bem pior: aquele mesmo homem que não havia participado do momento de lazer com seus iguais, agora também se recusava a dormir. E quando todos os demais já tinham sucumbido à embriagante magia de sono que o olhar draconiano trazia consigo, ali permanecia ele, resistindo noite adentro, evitando por diversas vezes o olhar da serpente de fogo. Até que não conseguiu mais resistir e por fim se rendeu ao abraço afável dos senhores dos sonhos, dormindo em paz. Novamente o dragão não entendeu porque aquilo acontecera, e não pode fazer nada a não ser desejar que tudo não passasse de um triste acontecimento isolado.
            Infelizmente, as coisas ainda estavam para piorar. Pois quando da visita seguinte de um dragão, não só houve um homem que deixara de participar das brincadeiras do dia, como ainda resistiu aos encantos noturnos da fogueira, permanecendo acordado até o raiar do outro dia. Era este o mesmo homem que havia feito algo muito, muito estranho aquela manhã, quando o visitante dos céus chegara: realizando movimentos um tanto quanto vacilantes com as mãos sujas de uma seiva viscosa, obtida através da trituração de algumas das lindas flores vermelhas que cresciam por ali, fizera ele alguns traços sobre uma pedra no solo. Ninguém parecia compreender muito bem o que era aquilo, mas o dragão julgou ver naquelas linhas alguma semelhança consigo mesmo, no que dizia respeito á sua forma, embora fosse muito vaga. Era este mesmo homem que agora via, pela primeiríssima vez, o que acontecia nestes dias de encontro depois que todos dormiam. 
            O dragão, aparentando certo cansaço (e esta foi também a primeira vez que alguém notou tal estado de espírito em um de sua espécie) lançou um longo suspiro no ar, lançando um vapor quente e ruidoso. Depois levantou-se bem devagar de onde estava e, avançando lentamente até o centro da roda, onde a fogueira terminava de arder, lançou um último olhar para o homem que restava acordado. Este o olhava mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, visivelmente fraco e fazendo força para lutar contra a vontade de dormir que já quase o dominava. Então a majestosa serpente de fogo pisou com uma das pequenas patas dianteiras sobre a fogueira e neste instante seu corpo começou a brilhar e logo depois a soltar pequenas fagulhas de fogo. O homem se assustou, e permaneceu assim enquanto o dragão todo começava a pegar fogo, até terminar por desaparecer por completo em meio à fagulhas brilhantes, que por fim caíam por sobre os homens, que as aspiravam em seus sonos. Mas sobre o homem acordado nenhuma fagulha pairou, e ele não aspirou nada daquele dragão.
            Quando a próxima visita ocorreu, as coisas já estavam bem diferentes e o dragão da vez logo percebeu que nada poderia terminar bem se as coisas continuassem daquele jeito. Agora os homens já não eram mais iguais entre si mesmos. Assim que pousou, dois homens se adiantaram e lhe entregaram uma pele de animal morto; nesta pele havia alguns riscos toscos, traçados a dedo com a seiva, folhas e flores de plantas trituradas. O dragão não entendeu, mas logo um terceiro homem avançou e se pôs diante dele. E este era um homem muito diferente. Não estava totalmente nu como os outros, mas usava alguns apetrechos e peles de animais, andava ainda de maneira mais altiva, e todos pareciam olhá-lo de outra forma; uma forma que lembrava o jeito com que olhavam os dragões, mas não exatamente igual. Este homem, por fim, sorriu mostrando novamente os riscos na pele, como se tivesse orgulho daquilo ou algo parecido, e depois, mexendo de maneira incerta os lábios, pronunciou alguns sons. Eram sons que pareciam não fazer sentido, mas o dragão logo percebeu que aquilo não era verdade. O que aqueles sons significavam era que agora havia uma diferença fundamental entre ele e os homens.
            Temendo o pior, e não gostando nada daquilo, que em sua lógica era algo que ia de encontro aos princípios de funcionamento do mundo, o dragão ameaçou levantar voo e partir. Mas isso parece ter enfurecido de alguma forma o homem semi-vestido, que o agarrou pela cauda o mais forte que pode. É claro que a força de um homem nunca foi párea para a vontade de um dragão, mas este também nunca feriria outro ser, pois eram criaturas neutras por natureza, que viviam em harmonia plena com os seres da terra, da água e do ar. Assim, por um instante o dragão ficou sem saber o que fazer, e este foi seu grande erro. Porque os demais homens, inflamados de alguma forma ao verem aquele distinto homem ser arrastado alguns metros pelo chão, agarrado à cauda do dragão, resolveram agir da forma que lhes pareceu mais adequada. E pegando algumas pedras, varas, tocos e mesmo frutos começaram a atirá-los na serpente de fogo. Esta não tentou resistir e desistiu de seu intento, pousando levemente. Neste mesmo instante os homens caíram por cima dela e, atacando impiedosos, tomados por algum obscuro instinto adormecido, acabaram por tirar a vida da mágica criatura. Seu último olhar pareceu dirigir-se até a montanha onde as serpentes de fogo viviam, como se quisesse avisar seus pares que o pacto havia sido quebrado, mas os homens pareceram não perceber.
            Muito tempo se passou sem que um novo dragão surgisse dos céus para visitar os pobres humanos. Neste período eles se dedicaram a aperfeiçoar o que tinham começado recentemente a desenvolver. Surgiram novas ferramentas que, embora rudimentares, apresentavam um grande avanço em termos de técnica e permitiam que eles realizassem tudo com mais eficiência; e até mesmo realizassem coisas de que antes nem se tinham dado conta de que precisavam. Surgiram também ferramentas mais sutis, como a habilidade de se comunicar por meio de um punhado de sons. Isso era interessante porque ajudava a organizar melhor o funcionamento das coisas e quem era quem por ali. Mas todos sentiam que, apesar de tudo, nada disso era o suficiente, algo sempre ainda lhes faltava. E então lembraram-se das visitas dos dragões: das brincadeiras, das fogueiras, da carne abundante. Então inventaram novos jogos – jogos que dispensavam dragões –, mas isso não foi o suficiente. Tentaram e tentaram até descobrirem a arte do fogo e como fazer uma fogueira, mas isso também não foi o suficiente. Empanturram-se da carne de animais que caçavam, mas ainda parecia que algo lhes faltava. E perceberam que havia algo que talvez apenas os dragões pudessem lhes dar, fosse o que fosse.
            Foi assim que certa manhã alguns homens adentraram a montanha onde viviam as serpentes de fogo e, apenas quando a tarde já caía regressaram ao resto do grupo, trazendo consigo um belo e brilhante dragão preso em uma rede. Trataram rapidamente de arrumar um lugar para alocá-lo: uma caverna, que teve logo depois a entrada cerrada por algumas pesadas pedras. Assim, julgaram, seus problemas estariam resolvidos e, em comemoração, uma grande festa foi celebrada nesta noite, com muita música, grandes fogueiras e fartas caças distribuídas. Mas nem todos participaram dela, pois alguns homens foram deixados de guarda, vigiando a entrada da caverna onde o dragão fora aprisionado.
            Nesta mesma noite, outro fato curioso se deu. Quando todos se fartaram de música e carne, alguns retiraram-se para dormir, outros quiseram continuar os festejos. Alguns entre estes eram os homens que haviam ido caçar o dragão. Eles sentiam agora pulsar dentro de si a antiga vontade primitiva de comungarem com as fêmeas de sua espécie e, munidos da coragem e entusiasmo que os festejos lhes acrescentaram, foram ter com elas. Em outros tempos tudo se dava de forma fluída e natural, com todos os envolvidos sentido através de suas percepções o que se passava com os outros. Mas desta vez foi diferente, e mesmo as fêmeas que se recusavam a tomar parte do ato, por não estarem em seu momento certo, foram forçadas a participar (se esta é a palavra correta), porque os destemidos homens julgavam-se merecedores de tudo, após o que tinham feito por todos. Eles não eram como as fêmeas, que nada tinham feito, e só podiam agora oferecer seu corpo.
            Após este dia tão especial os homens já não viam mais necessidade de sair por aí a fim de coletar frutas e animais. A carne fornecida pelo dragão cativo, e repartida com todos pelos devidos encarregados, era o suficiente para que eles pudessem se estabelecer ao redor da caverna, em busca de uma vida mais estabilizada. Para isso foi necessário um pouco mais de organização, é verdade, porque afinal, se quisessem que a nova ordem social fosse bem sucedida, não poderiam permitir que nada saísse dos eixos; assim como uma ferramenta depende do bom funcionamento de suas partes para garantir seu êxito, ou uma frase depende da ordenação de suas palavras; na nova vida todos tinham que seguir seu papel à risca. Mas isso tudo não era nada que eles não conseguissem resolver, já que por esta época havia sido estabelecido um poder que poucos ousavam desafiar; e caso isso acontecesse, punições estavam previstas. Tratava-se de uma autoridade.
            Munida de um conhecimento que se escusava da intuição e da percepção sensorial, havia esta classe de homens tão distinta das demais, proclamada como detentora do direito de decidir o que quer que fosse dos assuntos concernentes a terra e aos céus. Eram homens que dominavam ferramentas preciosas, que podiam moldar o barro e as pedras a seu bel-prazer, além de representarem nas paredes acontecimentos do mundo, presentes ou futuros. E entre eles havia ainda um homem mais importante que os outros, que dizia dominar tão bem a própria língua, que podia até mesmo conversar com os mortos, os demais seres e plantas e pedras. Ele era o escolhido, e portanto tinha também o poder da escolha. E suas escolhas foram muitas. Escolheu como as pessoas se organizariam, escolheu quem faria o quê nesta organização, escolheu onde viveriam, como tratariam seus animais, como falariam, como andariam, como puniriam, como... adorariam.
            Tudo parecia ir às mil maravilhas. Até que aquele primeiro dragão cativo morreu. Aparentemente, a carne retirada dele só não lhe fazia falta ou o prejudicava quando era doada de boa vontade, mas se fosse retirada à força, como era feita, lhe causaria a morte. Os homens julgaram que isso não era um grande problema, afinal disseram, haviam ainda muitos dragões na montanha de fogo. E para lá foram mandados alguns dos homens que serviam de guerreiros, buscar novos dragões.
            Dispondo de novas e melhores armas, não foi tão difícil como da primeira vez trazer alguns bons exemplares daqueles animais arredios. E na verdade, era cada vez mais e mais fácil. Com o tempo, os homens conseguiram até mesmo cuidar e manter por mais tempo vivas aquelas cativas serpentes de fogo, tirando delas o máximo de proveito. Até que um dia, um dos grupos de caçadores se rebelou. Diziam eles que não viam sentido em repartir com todos os benefícios da criação de dragões, visto que eram apenas eles que os obtinham, e o resto da população apenas desfrutavam deste seu trabalho. Desta forma foi estabelecida uma nova regra na ordem vigente, a fim de proteger a coesão da sociedade, e ela dizia que as coisas não podiam ser apenas possuídas, mas que também esta posse poderia ser adquirida mediante a troca por algo. Só era necessária uma moeda de troca.
Mas estas moedas de troca também não foram o suficiente para evitar a grande tragédia que se seguiu. Pois, com o tempo, alguns homens acumularam muitas moedas de troca, e descobriram que apenas isso não os satisfazia. Eles precisavam de mais, de tudo. Eles queriam o que ainda não podia ser possuído, o poder de escolha sobre os outros que alguns homens tinham. Assim teve início uma séria batalha, que terminou resultando em uma triste e desnecessária destruição de muitas vidas e uma separação ainda maior entre os homens, agora divididos em algumas tribos com fronteiras mais ou menos definidas. Nestas tribos o processo se repetia, como não poderia deixar de ser.
        E assim as coisas prosseguiram durante certo tempo, funcionando como manda a regra, reproduzindo os acontecimentos passados, vez após outra, vez após outra, vez após outra. Grupos de homens se estabeleciam em determinado lugar, onde fossem proveitosos os recursos animais e vegetais, estabeleciam uma ordem – arbitrária, é verdade, mas com a qual conseguiam se organizar e organizar o mundo à sua volta –, e lutavam contra os outros homens por mais daquilo que queriam ter e nunca alcançavam, mesmo possuindo algumas vezes muitos dragões e homens. Até um dia em que, após muito tempo longe de sua tribo, um grupo de caçadores retornou, com um aspecto bem abatido e lamentoso, trazendo consigo um mirrado dragão.
            Questionados do porque de tão demorada e improdutiva caça, eles responderam apenas que não havia mais serpentes de fogo na montanha. Neste momento alguns compreenderam imediatamente o que aquilo significava, outros não se deram conta da tragédia, pois acreditavam que estavam apenas agindo segundo o curso dos acontecimentos naturais, como eles deveriam ser de fato. Os homens precisavam dos dragões, então caçariam os dragões, não havia nada de errado nisso, garantiram as autoridades. E elas sabiam o que falavam, pois até mesmo os deuses que criaram curvavam-se perante suas palavras.
            Quando outras tribos enviaram seus grupos de caçadores à montanha, em busca de novos dragões e viram um após outro retornar de mãos vazias, as coisas começaram a ficar muito sérias. E os homens, já muito ocos e sem saber o que fazer para preencher a falta que sentiam dentro de si novamente guerrearam muitas e muitas vezes, de forma cada vez mais brutal, a fim de assumirem o controle dos últimos dragões.
            Até que um dia aconteceu de o último dos dragões morrer.
            Neste dia uma nova e enorme guerra eclodiu, tão horrível como jamais houvera outra antes, mas ninguém sabia mais o porque da luta; e homens e impérios guerreavam apenas porque era isso que acreditavam que deveria ser feito.
            Sem saber exatamente o que acontecia, os homens sentiram dia após dia algo imenso oprimindo seus peitos. Estes seus peitos que estavam cada vez mais vazios apesar de estarem entupidos com muitas coisas. E sentiram cada vez mais saudades de alguma outra coisa em alguma outra época, quando todos eram basicamente, e a despeito de suas individualidades, uma única coisa apenas. Mas agora isso parecia apenas palavras vazias – e talvez o fossem de fato –, e a real sensação de tudo se lhes escapava por entre os dedos, por entre as armas.
            Até que um dia, um dos poucos sobreviventes desta grande guerra, já muito ferido e sem esperanças de sobreviver, caminhou cambaleante por entre as árvores de uma pequena floresta que havia resistido, não se sabe como, ao longo dos séculos e parou debaixo de uma grande árvore, muitas vezes maior que ele, que possuía a copa em formato de guarda chuva. Querendo descansar, e tomando cuidado para não cair pesadamente ao solo, fincou sua faca sobre o tronco e o utilizou como apoio. Então sentou-se e ficou a mirar o sol poente, sentindo sua vida cada vez mais fraca. Perguntava-se lamentosamente porque tudo aquilo havia acontecido, e se haveria alguma forma de consertar tudo. Se ainda haveria algum futuro. Depois de um tempo sentiu algo escorrendo-lhe sobre a cabeça. Algo viscoso e vermelho. Caiu-lhe sobre a vista, embaçando tudo. Assustou-se e, de imediato fez um esforço para olhar acima, pondo uma mão nos olhos, a outra na cabeça, procurando ferimentos. Só então percebeu que o líquido vermelho que escorria vinha do ferimento no tronco causado pela sua faca. Era a seiva daquela bela árvore. E ele compreendeu no fundo do seu ser, mas sem saber como, já que nunca havia estudado nada disso, que estava sentado embaixo de um ‘Dragoeiro’, ou ‘Sangue de Dragão’, como era conhecida aquela planta. Neste momento, se deu conta intuitivamente de que se aquela árvore havia sobrevivido, então havia ainda alguma esperança. E, com seu coração pleno de alegria, sentindo aquela seiva viva pulsar sobre sua cabeça, desejou em seu último suspiro que os homens percebessem a tempo.  


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu só sossego o dia
em que conseguir escrever
um poema
 que seja um pernilongo na noite
impedindo o sono da cidade,
arame farpado enroscado
no pescoço onde antes
havia só pérolas e vaidade
Pois, dizem, pareço
um desses desesperados,
cantando de lado um canto
esganiçado,
deprimido, descompassado...
Um canto fodido
Mas, agora, alto
digo que sou digno, eu miro o futuro!
Sou um soldado da alegria,
da verdadeira alegria:                                                                                         
a  despretensiosa revolução
preconizada por Leminski
nos leves livres versos
de sua distraída vitória,
a revolução deste mundo                                                                                    
ansiada por Brecht , Maiakóvski,
Tzara e Schwitters
(e que ainda não chegou,
 a guerra continua),
a revolução do espírito
propagada por Ginsberg, Artaud,
precedidos por Blake,  Whitman,
Crane e outros tantos,
a  revolução de si mesmo
realizada por tão poucos
(que nem mesmo os conhecemos)
E se hoje desanimado desen
                             canto a vida
transmitida
                       pelos televisores,
decerto é porque quero
amanhã ver um sorriso e uma flor
bem aqui; em realidade,
em cada rosto na rua, em cada
pessoa, repleta e plena de vida!
Eu luto pela dura e triste revolução da alegria

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sobre um conhecimento demasiadamente grande e insuficiente

não é nem meia noite e já não sei o que fazer da vida
sinto medo, sono e tesão
em outras épocas um homem saberia o que pensar
- talvez até o que fazer -
mas hoje em dia eu penso apenas em como arrancar meu hipotálamo
este é o problema do mundo, o problema de cada um de nós:
em meu armário o conhecimento humano se reúne
em pilhas de livros inertes e desprovidos de sentido;
 ele resolve problemas que, em verdade, nem são problemas
enquanto lá fora, lá fora há uma bela lua, e quem a vê de nada reclama...
mas aposto que, infelizmente, ninguém  a olha
Veja, Thales, seu tolo, a literatura
não fala sobre o eterno
(não mais do que falam estes homens
morrendo por eutanásia
apertados nos trens do metrô, enjaulados
em escritórios, refletidos nos produtos
sempre novos dos supermercados,
guardados com suas mãos nos bolsos de casacos)
Se quiser aprender algo olhe para o chão,
entre seus próprios pés tortos e passos vacilantes
- onde você quer chegar? ou
apenas sabe que quer sair daqui? -
Olhe estas quase sufocadas plantinhas anêmicas
 e pobres matos fracos que esperam pelo sol
nas frestas que surgem pelos calçamentos
em que você passa todos os dias sem notar,
míope que está com seu começo de calvície,
aluguel por pagar, sexo e ego hipertrofiado
Elas venceram o concreto, em sua fragilidade
e, em verdade corroem – durante suas breves vidas  –
a falsa idéia de grandeza deste mundo inventado
Sim, inventado: na França a triunfante Torre Eiffel aponta
para o imensurável céu acima, revelando
apenas sua própria pequenez; a grande
pirâmide adormecida no Egito sob o dourado sol
impiedoso do deserto também não é importante,
misturando-se grão a grão à areia sobre a qual repousa
O Taj Mahal tampouco importa pois
o amor é um oásis muito maior, brilhando
em um deserto bem mais árido
Já a Estátua da Liberdade nem mesmo é verdadeira
e morre e remorre a cada guerra que passa,
com suas roupas amarrotadas ficando mais e mais remendadas
E também o Big Bem, esta monstruosa aberração
adorada pelos londrinos, um dia encontrará
o  implacável fim de seu tempo perdido, deixando
de ressoar mesmo na memória,
enquanto o Cristo no Rio cruzará seus braços
ante a passagem inexorável das eras,
sumindo para nunca mais retornar
E cada cidade, estas cicatrizes sem sentido feitas de plástico,
cimento, velocidade, luz, vontade e metal,
com suas pontes que separam, torres que distorcem,
prédios que se exibem e templos de sombra que matam,
será  varrida para sempre da pele doente da Terra
pela ventania irrefreável da vida
A mesma vida que espreita, quase sem fé
(mas plena de graça e imponência
devido mesmo à sua suposta impotência)
deste pouco verde que brota da fresta que resta
entre seus pés

domingo, 18 de setembro de 2011

a polícia

estes desmiolados cachorrinhos da política,
com sua visão de mundo dividida em branco e preto,
farejando só o que não presta nos homens
e latindo para qualquer um,
são muito perigosos dentro
ou mesmo fora da coleira.
vira e mexe um deles escapa,
morde um pobre coitado por aí
e corre alegre até o dono
com um naco de carne sangrando
atravessado no meio dos dentes,
abanando o rabo, sorridente.
são uns putos delinqüentes ,
que fedem e cagam pelas ruas da cidade
  
mas quem vive na rua, é verdade
corre sempre o risco de ser atropelado;
e, não quero ser profético, nem nada,
mas aviso
que ainda chegará aqui, uma nova ordem pela estrada.

                                                           (poema escrito após ser abordado e interrogado
                                                            de maneira bem rude por dois políciais em uma
                                                            viatura, apenas porque estava sentado na calçada
                                                            de uma esquina, sem fazer nada)